Energia
Cooperativa

Energia.coop


Responde

Como aproveitar as oportunidades na Economia Verde?

Como aproveitar as oportunidades na Economia Verde?

Energia limpa cooperativa não é só sobre eletricidade e descontos na conta de luz. 

É sobre pessoas, valor local, adaptação climática e futuro sustentável.

 

O Contexto Climático

O 6º Relatório de Avaliação do Painel Internacional do Clima (IPCC AR6, 2022) não deixa dúvidas: estamos vivendo a emergência climática. E a humanidade tem papel crucial neste contexto. Se há (ainda) controvérsias sobre a origem antrópica do agravamento do aquecimento global e suas consequências, não resta dúvidas sobre a importância do papel das sociedades humanas e da transformação de seus sistemas para construção de resiliência climática.

O aquecimento global é impulsionado, sobretudo, pela queima de combustíveis fósseis — carvão, petróleo e gás natural — utilizados na geração de energia, no transporte e em processos industriais. Essa prática libera grandes volumes de dióxido de carbono (CO₂), intensificando o efeito estufa e provocando o aumento da temperatura média do planeta. Desde o período pré-industrial, a concentração atmosférica de CO₂ passou de aproximadamente 280 partes por milhão (ppm) para mais de 430 ppm em 2025, conforme medições realizadas pela NASA e pela NOAA. Esse crescimento acelerado tem contribuído diretamente para a alteração dos padrões climáticos globais.

Limites Planetários

Pesquisa realizada pelo Stockholm Resilience Centre (RICHARDSON et al., 2023) atualizou a estrutura dos limites planetários e constatou que 6 dos 9 limites foram transgredidos, e o nível de transgressão aumentou para todos os limites anteriormente ultrapassados. Este resultado sugere que a Terra estaria agora bem fora do espaço operacional seguro para a humanidade. É como se já não vivêssemos no velho e conhecido planeta, mas sim em um ambiente desconhecido que não funciona da maneira que conhecíamos. E precisamos nos adaptarmos para viver nesta nova realidade, com foco em estruturar resiliência e respostas locais.

 

O conceito de limites planetários ajuda a entender até onde podemos explorar os recursos da Terra sem comprometer sua estabilidade.

São nove limites principais:

  1. Clima
  2. Biodiversidade
  3. Uso da terra
  4. Ciclos de nutrientes (nitrogênio e fósforo)
  5. Água doce
  6. Novas substâncias químicas
  7. Oceanos (acidificação)
  8. Camada de ozônio
  9. Poluição do ar (aerossóis)

 

Necessidade de Soluções Locais

Nesse contexto, a geração local e descentralizada de energia renovável deixou de ser tendência para se tornar necessidade. Em comunidades rurais, ainda há desafios como acesso limitado, custos elevados e dependência de fontes não sustentáveis. Em áreas urbanas, infraestruturas críticas precisam ser mais resilientes. Em ambos os casos, é essencial fortalecer comunidades para que possam gerir soluções locais, organizadas e autônomas.

 O papel das Cooperativas de Energia Renovável

Energia é recurso essencial para acesso a outros recursos básicos como água, alimento e saúde. Cooperativas de geração distribuída (GD) podem oferecer soluções comunitárias, mas muitas se limitaram a descontos na fatura desde 2016. Para cumprir sua missão, precisam retomar os princípios cooperativistas, conhecer as demandas locais e oferecer soluções que fortaleçam comunidades. Assim, tornam-se agentes de mudança, capazes de garantir relevância mesmo sem subsídios e de contribuir para uma transição energética justa e democrática.

O que é uma Cooperativa?

Segundo a ICA – Aliança Cooperativa Internacional, uma cooperativa é uma associação autônoma de pessoas que se unem voluntariamente para atender às suas necessidades e aspirações econômicas, sociais e culturais comuns, por meio de uma empresa de propriedade coletiva e gestão democrática.

Em essência, uma cooperativa:

  • Representa a cooperação entre iguais.
  • É uma organização democrática.
  • Está comprometida com o interesse comum de seus membros.
  • Promove a sustentabilidade.
  • Possibilita a tomada de decisão descentralizada.
  • Incentiva a participação ativa dos cidadãos em sua gestão.
  • Fortalece a economia local.
  • Estimula a educação, formação e capacitação de seus membros.

Benefícios concretos para cooperados e sociedade

Ao assumirem plenamente seu papel cooperativista, as cooperativas de GD se diferenciam dos grandes parques eólicos e solares, que frequentemente sobrecarregam o sistema ao enviar energia de forma concentrada. Diante da ANEEL e das distribuidoras, podem se posicionar como aliadas locais, gerando e consumindo energia de forma descentralizada e sustentável.

  • Para os cooperados: acesso confiável e sustentável à energia, redução de custos e maior autonomia.
  • Para a comunidade: geração de valor local, fortalecimento da economia, criação de empregos e maior resiliência climática.
  • Para a sociedade: consolidação de um modelo que alia transição energética justa, participação cidadã e sustentabilidade de longo prazo.

Dessa forma, reafirmam sua vocação cooperativista e estratégica, colocando as pessoas no centro das decisões e contribuindo para uma transição energética justa, democrática e sustentável. “O cooperativismo reafirma seu papel como um modelo que vai além da economia, fortalecendo valores como confiança, reciprocidade e pertencimento. Esses ‘bens relacionais’ sustentam práticas que colocam as pessoas no centro das decisões.” (Silvio Giusti).

Oportunidades Estratégicas

O Brasil possui uma matriz elétrica majoritariamente renovável (80–85%), mas ainda consome menos eletricidade per capita que países desenvolvidos (Brasil: 2.700 kWh/habitante/ano; UE: 5.500; EUA: 12.000). Esse espaço para crescimento sustentável abre oportunidades para as cooperativas:

  • Descarbonização: apoiar transporte, indústria e comércio.
  • Incentivos governamentais: acesso a linhas de financiamento.
  • Gestão compartilhada: plataformas digitais para microgrids e otimização do consumo.
  • Diversificação energética: integração de solar, eólica, biomassa e pequenas hidrelétricas, com smart grids e baterias.
  • Mobilidade elétrica: infraestrutura cooperativa de recarga e parcerias com transporte urbano.
  • Hubs de inovação: serviços agregados (kits solares, irrigação sustentável, carregamento veicular) e polos de energia + mobilidade + tecnologia.
  • Defesa institucional: atuação junto ao MME e ANEEL para garantir prioridade em racionamentos, especialmente diante do Encargo Complementar de Recursos (ECR), criado pela MP 1304/2025, que redistribui custos da CDE e exige eficiência energética e gestão local para mitigar impactos financeiros.

Por fim, mas não menos importante, enumeramos algumas oportunidades estratégicas para que Cooperativas de Energia na Economia Verde possam dar esta guinada. Mas antes, vamos relembrar que:

Estratégias para a guinada

  • Comunicar o DNA cooperativista e entender as demandas reais dos associados.
  • Ser aliado estratégico do setor elétrico e participar da solução para os desafios do setor.
  • Mobilizar a sociedade para uma transição justa e promover adaptação climática comunitária.
  • Implementar políticas de gestão energética verde e boas práticas de monitoramento e planejamento.

Conclusão
As cooperativas de energia renovável têm diante de si uma oportunidade única de protagonismo na economia verde. Ao unir inovação tecnológica, gestão comunitária e princípios cooperativistas, podem gerar valor local, fortalecer a resiliência das comunidades e contribuir para um futuro mais justo, inclusivo e sustentável.


Todos os direitos reservados.