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Baterias sobre rodas: como cooperativas de GD podem transformar armazenamento em valor para o sistema elétrico

Baterias sobre rodas: como cooperativas de GD podem transformar armazenamento em valor para o sistema elétrico

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A transição energética vem ampliando o papel dos consumidores no setor elétrico. Se antes a geração, o armazenamento e a gestão da energia estavam concentrados em grandes usinas e operadores de rede, hoje tecnologias como a geração distribuída, os sistemas de armazenamento e os veículos elétricos estão transformando residências, empresas e comunidades em participantes ativos do sistema.

Nesse contexto, as cooperativas de energia renovável e de geração distribuída (GD) têm uma oportunidade estratégica de ampliar seu portfólio de serviços, acelerar a inovação e fortalecer seu posicionamento junto ao mercado e aos reguladores. Mais do que gerar energia limpa e proporcionar economia aos cooperados, essas organizações podem se tornar importantes prestadoras de serviços de flexibilidade, contribuindo para a estabilidade, a eficiência e a modernização das redes elétricas.

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Um exemplo dessa tendência vem da Alemanha, onde empresas de energia, montadoras, universidades e operadores de rede estão testando modelos de carregamento bidirecional de veículos elétricos. A proposta é utilizar as baterias dos automóveis como recursos energéticos distribuídos, capazes de armazenar eletricidade, abastecer residências e até devolver energia à rede nos momentos de maior necessidade. O objetivo é transformar milhões de pequenos ativos descentralizados em aliados da operação do sistema elétrico. Para as cooperativas brasileiras, a mensagem é clara: a expansão da geração distribuída não precisa ser vista como um desafio para as redes, mas como parte da solução.

Ao integrar tecnologias de armazenamento, gestão inteligente da demanda, mobilidade elétrica e serviços energéticos inovadores, as cooperativas podem reforçar sua contribuição para a segurança energética e a descarbonização, ao mesmo tempo em que criam novas fontes de valor para seus associados.

O artigo a seguir, originalmente publicado em 30 de maio de 2026 no jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung e traduzido pela equipe do Energia.Coop, apresenta como o carregamento bidirecional está sendo testado na Alemanha e por que ele pode representar um importante avanço na integração entre geração distribuída, mobilidade elétrica e operação das redes de energia.

Clique para acessar o artigo original

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Carros elétricos devem aliviar a carga das redes elétricas

O carro elétrico está se tornando uma bateria de armazenamento de energia. A empresa de energia Eon aposta que soluções descentralizadas podem trazer vantagens.

Por Jonas Jansen, Essen

A wallbox (estação de carregamento residencial) indica a direção em que a eletricidade está fluindo. Neste momento, a energia está indo da casa para o carro; na tela do BMW aparece “9,8 kW”. A bateria está carregada em 85%. Michael Rahi pega seu smartphone e abre um aplicativo.

“Esta é uma versão de teste; no futuro será diferente”, explica. Com alguns cliques, ele transforma o carro de consumidor em fornecedor de energia. Na wallbox ao lado do cabo de carregamento, a direção do fluxo muda. O BMW iX3 passa então a fornecer 11 kW.

Rahi trabalha para a empresa de energia Eon, sediada em Essen, e é gerente do projeto “BDL Next”, uma iniciativa de pesquisa que avalia o potencial do carregamento bidirecional de veículos elétricos. O objetivo é, futuramente, aliviar a carga das redes elétricas. Para os clientes, a proposta também é atrativa, pois poderão utilizar a bateria do carro para abastecer sua própria residência e até mesmo gerar renda ao injetar eletricidade na rede.

O projeto entrou agora em sua fase decisiva: a etapa piloto. Iniciado em novembro de 2023, tem duração prevista de três anos. O Ministério Federal da Economia da Alemanha destinou 11 milhões de euros ao projeto, coordenado pelo Centro Aeroespacial Alemão (DLR) e liderado pelo Instituto de Pesquisa em Economia Energética.

Além do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, da Universidade de Passau e da EBZ Business School de Bochum, diversas empresas participam da iniciativa. A BMW fornece os veículos elétricos; a parte energética fica a cargo da operadora de transmissão Tennet e da distribuidora Eon. Já a infraestrutura de carregamento e as interfaces de software são desenvolvidas pela empresa KEO e pela fabricante de estações de carregamento Compleo.

Há um mês, 20 participantes receberam os veículos para testes. Havia uma condição: eles deveriam ser clientes da Westnetz ou Bayernnetz (subsidiárias da Eon) e possuir painéis fotovoltaicos instalados em seus telhados. Agora começa a fase piloto de seis meses. Em fevereiro, a Autoridade Federal de Transporte Motorizado informou que o número de carros elétricos totalmente elétricos registrados na Alemanha ultrapassou a marca de dois milhões. Contudo, apenas uma pequena parcela deles é “bidi-ready”, ou seja, preparada para carregamento bidirecional.

Segundo os dados mais recentes disponíveis, havia cerca de 225 mil veículos elétricos com essa capacidade. A BMW está impulsionando a tecnologia, e novos modelos da Ford também já conseguem não apenas receber energia, mas também devolvê-la à rede. A Volkswagen, por sua vez, ainda limita o tempo e a quantidade de energia que pode ser fornecida de volta. Algumas fabricantes, como a Nissan, já incorporaram essas funções, mas ainda não as divulgam ativamente.

O objetivo do projeto não é apenas aumentar a aceitação da tecnologia, mas também coordenar, no longo prazo, milhares de pequenas capacidades distribuídas em residências para aliviar o sistema elétrico como um todo.

Para empresas como a Eon, é fundamental aprender como controlar de forma direcionada a flexibilidade oferecida pelos veículos elétricos e como medir e atribuir corretamente os fluxos de energia — por exemplo, identificar quando a eletricidade vem do veículo e se sua origem é renovável.

Embora os testes estejam sendo realizados atualmente com veículos BMW, a meta é desenvolver interfaces abertas. Dessa forma, os consumidores poderão utilizar o sistema independentemente de fornecedores de energia, operadores de rede, fabricantes de wallbox ou montadoras. Essa é uma exigência do financiamento público, embora os participantes do projeto possam ganhar vantagem competitiva. A Eon espera lançar seus primeiros produtos comerciais relacionados ao tema já em 2027.

Já existem algumas tarifas que permitem aos proprietários de veículos elétricos utilizar suas baterias como fonte de fornecimento de energia. A própria Eon já oferece uma solução desse tipo em parceria com a BMW. Entretanto, o projeto de pesquisa vai além, integrando as interfaces não apenas ao veículo, mas também à residência e estudando seus impactos sobre as redes de distribuição.

“O projeto piloto torna concreto aquilo em que trabalhamos há algum tempo: um uso controlável, mensurável e benéfico à rede em larga escala”, afirma Stefan Padberg, diretor de inovação da Eon.

A necessidade de flexibilidade cresce especialmente nas redes de distribuição devido ao aumento da mobilidade elétrica, à expansão da geração descentralizada de energia e ao crescimento do número de equipamentos elétricos. Pequenos sistemas, como bombas de calor, baterias estacionárias e carros elétricos, podem ajudar a equilibrar a rede. Porém, isso também aumenta a complexidade do sistema, justificando a realização de projetos de pesquisa como este.

Há inúmeras questões que ainda precisam ser esclarecidas. A principal delas é a coordenação entre os diversos níveis envolvidos: consumidores, operadores de rede, comercializadores de energia e o mercado. Também entram em pauta os custos de tarifas de energia do mercado intradiário (“intraday”), contratos adicionais para a injeção de energia na rede e até mesmo implicações tributárias. Além disso, é preciso definir padrões para as wallbox, que podem operar com corrente contínua (DC) ou alternada (AC). Dependendo da tecnologia utilizada, o conversor de energia fica no veículo ou na estação de carregamento.

A solução deve funcionar com ambos os sistemas. As estações DC são significativamente mais caras, em parte porque permitem potências mais elevadas. Ainda assim, Michael Rahi acredita que os preços das wallbox deverão cair:

“Há dois anos pagamos 7.000 euros pela primeira wallbox. Hoje os preços estão entre 2.000 e 3.000 euros. Acredito que essa tendência continuará”, afirma.

A Eon não pretende oferecer aos clientes uma tarifa dinâmica de eletricidade, mas sim um valor fixo por quilowatt-hora. Segundo os cálculos da empresa, um consumidor poderia ganhar cerca de 60 euros por mês ao utilizar seu carro elétrico como bateria conectada à rede, o equivalente a aproximadamente 720 euros por ano. Dessa forma, os custos adicionais das wallbox preparadas para carregamento bidirecional seriam amortizados rapidamente.

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